Choro Grato
Quando chora o céu,
Tem o ar essa face orvalhada,
Caudal de lágrima perene que sente o véu claro derramar-se
sob a terra solene
Vê-se a cortina alva
entrelaçando as formas altas
e as figuras amainadas do solo falho
Nostalgia furtiva,
engravida o ser com semente de presságio úmido,
feto que brota sempre junto ao choro do nublado fundo,
Há esses momentos em que faço chover dentro,
Põem-se nuvens entre os pensamentos
E sentir torna-se puro desaguar-se
Quando chora o céu
Vêm esse frêmito de sentir-se afluente da garoa branda
Penso como que de soslaio,
A observar o céu em pranto
como seria findar a vida à jusante em delta raro,
estuário final da corredeira doce
Embora desde a fenda nascente tenha provado do sal,
é só na praia calcária que vem o gosto acre?
de não mais escorrer na areia branca
E continua esse querer suspender-se,
e ser riacho em meio essa chuva premente,
Lá fora insiste a névoa curva em soluçar esse orvalho,
E continua a sensação de ser desse céu o choro grato
A queda, de René Magritte, em 1953


li alto e também gostei. Mas esse é bem profundo, com vocabulário rico... vou ter que ler muitas outras vezes, com a impressão de que sempre terei coisa nova para sentir e pensar a partir dele:
ResponderExcluir"sentir torna-se um verdadeiro desaguar" e o mundo está precisando desaguar mais... derreter mais, está tudo tão duro. Vou ler muitas vezes.
uai! Vidal, tá muito legal, continue escrevendo...
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